Durante um comício eleitoral no estado do Rajastão no último domingo (21), o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, proferiu comentários considerados islamofóbicos, gerando revolta entre proeminentes muçulmanos e membros da oposição. As declarações ocorrem em meio às eleições gerais no país, onde o Partido Bharatiya Janata (BJP) de Modi busca um terceiro mandato consecutivo.
Diante de uma grande multidão, Modi afirmou que, caso o principal partido de oposição, o Congresso Nacional Indiano, vença as eleições, a riqueza do país seria distribuída entre “infiltrados” e “aqueles que têm mais filhos”, em aparente referência à comunidade muçulmana. “Eles vão reunir toda a sua riqueza e distribuí-la entre aqueles que têm mais filhos. Eles vão distribuir entre os infiltrados”, declarou o premiê, provocando fortes reações da plateia.
A oposição, que há tempos acusa Modi e o BJP de utilizar retórica divisiva para impulsionar o crescente nacionalismo hindu, aproveitou a polêmica. Membros opositores solicitaram à Comissão Eleitoral da Índia (ECI) uma investigação sobre possíveis violações do código de conduta, que proíbe apelos aos eleitores com base em “classe” e “sentimentos comunitários”, bem como atividades que possam agravar diferenças ou criar ódio entre comunidades e religiões.
Os comentários de Modi geraram ampla repercussão negativa entre os muçulmanos, que temem um aprofundamento das divisões comunitárias caso o BJP conquiste um terceiro mandato. A jornalista muçulmana Rana Ayyub classificou as declarações como “discurso de ódio direcionado, direto e descarado contra uma comunidade”. Já o parlamentar muçulmano Asaduddin Owaisi acusou o premiê de chamar os muçulmanos de “infiltrados e pessoas com muitas crianças”.
O líder do Congresso, Mallikarjun Kharge, descreveu os comentários como “discurso de ódio” e uma manobra para desviar a atenção, associando Modi aos valores do Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização paramilitar hindu de direita à qual o BJP é afiliado.
Desde que chegou ao poder em 2014, Modi e seu partido têm sido acusados de impulsionar a polarização religiosa com políticas nacionalistas hindus, alimentando a islamofobia e confrontos comunitários no país. Embora a Índia possua uma minoria muçulmana significativa, com cerca de 230 milhões de pessoas, uma falsa narrativa difundida por alguns nacionalistas hindus retrata os muçulmanos como forasteiros que estariam deliberadamente desalojando a população hindu ao ter famílias numerosas.
Apesar de o BJP negar discriminação com base na religião, pesquisas e relatórios apontam para um aumento das divisões no país. Um estudo recente do grupo Índia Hate Lab documentou 668 casos de discurso antimuçulmano em 2023, sendo 75% deles em estados governados pelo BJP. Embora a Índia criminalize o discurso de ódio, grupos de direitos humanos alegam falta de ação adequada contra os perpetradores, o que forneceria apoio tácito aos extremistas de direita.