O lado sombrio das redes sociais: alerta de Marilena Chaui

"Existir é ser visto": Filósofa revela como o mundo digital está criando uma geração narcisista e depressiva
A filósofa Marilena Chaui revela como o mundo digital está criando uma geração narcisista e depressiva

Em uma entrevista reveladora à TV Brasil, a renomada filósofa brasileira Marilena Chaui, professora emérita da Universidade de São Paulo, autora de clássicos como “Convite à Filosofia”, lançou luz sobre um fenômeno preocupante de nossa era: a emergência de uma nova subjetividade moldada pelo mundo digital. Suas palavras oferecem uma análise profunda e crítica sobre como as plataformas digitais estão transformando nossa percepção de nós mesmos e do mundo ao nosso redor.

“Está surgindo uma nova subjetividade por esse mundo digital. Primeiro é uma subjetividade narcisista, ou seja, existir é ser visto. Se você não é visto, você não existe”, afirma Chaui, destacando a centralidade da visibilidade na construção da identidade contemporânea.

A filósofa aprofunda sua análise, explicando a natureza paradoxal dessa subjetividade: “Só que, como você depende para ser visto do olhar do outro e você não tem o controle sobre o olhar do outro, você ininterruptamente, e como Freud dizia, o narcisismo é inseparável da depressão.” Esta observação revela a fragilidade inerente a uma identidade construída sobre a aprovação externa constante.

Chaui alerta para as consequências alarmantes desse fenômeno: “Então, você tem uma subjetividade nova que é narcisista depressiva e que depende desesperadamente do olhar alheio. E por isso ela depende do influencer, do coach, do não sei quem.” Esta dependência, segundo ela, leva a um ciclo vicioso de busca por validação e subsequente depressão quando essa validação não é obtida.

A filósofa também chama a atenção para um dado preocupante sobre o aumento das taxas de suicídio entre jovens. Embora Chaui não cite uma fonte específica, dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) corroboram essa preocupação. Segundo o relatório “Suicide worldwide in 2019” da OMS, o suicídio é a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos globalmente.

Chaui vai além, argumentando que estamos diante de uma “mutação civilizacional”. Ela explica: “Não houve uma mudança tecnológica, houve uma mutação civilizacional. É um outro mundo, é uma outra coisa. O mundo virtual é outra coisa.” Esta perspectiva sugere que as mudanças que estamos vivenciando vão muito além de simples avanços tecnológicos, afetando fundamentalmente nossa forma de existir e interagir.

A filósofa também aborda a ilusão de liberdade proporcionada pelo mundo digital: “E onde está a servidão? O fato de que você é um usuário, você não é o criador de nada daquilo, você é um simples usuário e o criador são os grandes oligopólios que controlam a sua mente, os seus sentimentos, o seu corpo, a sua vida.”

Chaui conclui sua análise com uma observação sobre as mudanças no mundo do trabalho: “O que é o surgimento do empresário de si mesmo, isto é, do precariado? É a desaparição da figura da classe trabalhadora, a classe trabalhadora que concretamente, através do trabalho, se relacionava com o mundo, era a forma da relação social e política.”

As reflexões de Marilena Chaui oferecem um ponto de partida valioso para um debate mais amplo sobre o impacto das redes sociais e do mundo digital em nossa sociedade. Suas palavras nos convidam a questionar criticamente nossas práticas online e a considerar as implicações mais amplas da revolução digital em curso.

Fonte: TV Brasil

Entrevista realizada pelo jornalista Leandro Demori.

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