Racismo Estrutural: O Abismo Mortal na Saúde Materna Brasileira

Estudo da Unicamp revela que mulheres pretas enfrentam o dobro do risco de morte durante o parto e puerpério em comparação com mulheres pardas e brancas
Mulheres pretas enfrentam risco de morte durante o parto e puerpério - Freepik

Uma pesquisa publicada na conceituada Revista de Saúde Pública em junho deste ano trouxe à tona uma realidade alarmante: o impacto devastador do racismo na saúde materna no Brasil. O estudo, conduzido por pesquisadores da renomada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), evidenciou que mulheres pretas têm quase duas vezes mais chances de perder a vida durante o parto ou no período pós-parto, em comparação com mulheres pardas e brancas.

Os dados revelam uma disparidade gritante em todas as regiões do país, com a taxa de mortalidade atingindo níveis críticos entre as mulheres pretas. No Norte, esse índice chega a 186 mortes a cada 100 mil nascidos vivos. Contudo, é no Sudeste que o abismo racial se mostra mais profundo: enquanto mulheres negras enfrentam 115,5 mortes a cada 100 mil nascidos vivos, esse número cai para 60,8 entre as mulheres brancas.

José Paulo Siqueira Guida, coautor do estudo e pesquisador da Unicamp, destaca um achado surpreendente: “As mulheres pretas têm maior risco de morte quando comparadas, também, às mulheres pardas”. Essa constatação evidencia que, mesmo dentro de grupos já vulneráveis, há mulheres expostas a vulnerabilidades ainda maiores. Fernanda Surita, também da Unicamp e coautora da pesquisa, ressalta a importância desse trabalho para compreender a posição de vulnerabilidade das mulheres pretas, que enfrentam um risco elevado de morte durante e após o parto.

O próximo passo da equipe de pesquisa é se debruçar sobre bases de dados nacionais de morte materna, buscando compreender as características de saúde das mulheres que perderam a vida nessas circunstâncias. O objetivo é claro: levantar evidências científicas sólidas que possam nortear intervenções e políticas públicas efetivas para prevenir essas mortes evitáveis.

Esse estudo é um grito de alerta sobre o impacto do racismo estrutural na saúde materna brasileira. É inadmissível que, em pleno século XXI, a cor da pele ainda determine as chances de uma mulher sobreviver ao parto. É hora de agir, de transformar essas evidências em políticas concretas que garantam o direito fundamental à vida e à saúde para todas as mulheres, independentemente de sua raça. A maternidade não pode continuar sendo uma sentença de morte para as mulheres pretas no Brasil.

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